Quico Imperial
Chamo-me Francisco. Francisco Ventor! Sou mais conhecido por Quico. Não sei onde nasci, mas fui encontrado na cidade da Amadora a morrer de fome. Eis a minha história:
Eu sou um gato pensador. Posso dizer mesmo, "intelectual"! Diz o Ventor que sou como o Metistófeles de «The Cats». E também sofro! Ora se homem sofre, gato, parceiro do homem, nesta passagem terrena, também sofre. Eu sei como custa viver neste mundo inglório. Há uma espécie de ar poluido, um ar carregado nesta atmosfera que respiramos. Quando coloco a cabeça fora da janela para ver os meus amigos em cima de telheados zincados ou mesmo telhas, abarracados, sobre paredes distorcidas, em madeira, pedras ou chapas, eu vejo uma espécie de pavor que paira nos ares.
Os meus amigos passam fome, dão-lhes cacetada quando descem dos telhados, alguns são escaldados com água a ferver e até o meu amigo "Moisés", sofreu muito para conseguir curar as queimaduras que um homem negro lhe fez ao despejar-lhe uma frigideira de azeite ou óleo a ferver, em cima. O "Moisés" assustou-se muito e perdeu a capacidade para lutar pela sobrevivência ao perder as capacidades de comando que tinha conseguido, como líder, entre o seu Maralhal.
O "Moisés" era um valente gato preto, um líder, que foi queimado por um homem de côr, por mau íntimo, ou sei lá, por ter horror aos animais que lhe fazem concorrência na luta pela sobrevivência do dia a dia. Nessa luta inglória para o "Moisés", pois os animais não são tão manhosos como os homens, estes, na sua maioria são vingativos e injustos, sem perceberem muitas vezes os princípios de solidariedade que deveria existir entre todos os seres vivos. Neste mundo cruel, o "Moisés" foi vencido e morreu prematuramente. Foi arrepiante ter assistido aos últimos tempos do meu amigo "Moisés"!
Eu, que sou um gato felizardo, ao lado do Ventor, já tive, também, os meus tempos de infortúnio. Abandonaram-me, quando ainda precisava de mamar, sobre os telhados de que vos falo. Queria leite da minha mãe e não tinha, nem leite, nem mãe; queria comer e não tinha e, quando tinha, não podia comer.
Sempre que tentava abocanhar qualquer coisa mandada das janelas dos prédios, em frente, os mais velhos vinham e tiravam-ma. Quando todos fugiam, eu agarrava-me com as unhas a tudo que me era permitido: paredes de cimento, telhas, madeiras, chapas, ... Muitas vezes, no ímpeto da fuga, caía de costas e quase não tinha forças para me virar. Gritava a todo o mundo a pedir ajuda, aos meus companheiros de infortúnio e, até, aos eventuais seres que já são de outro mundo.
Os rapazes, maus como aqueles que os fizeram, tentaram matar-me à pedrada, com chumbo de flauber, ou à fisgada. Eu fugia sobre os telhados e escondia-me como podia mas, as forças começaram a faltar-me e acabei por me deixar apanhar. Dois rapazes, levaram-me para me dar à mãe de um deles, mas ela não me quis.
Levaram-me para me matar, a mim, um gatinho pequenino, esfomeado, já com os meus olhos azúis vidrados como vidros baços. Numa boa hora apareceu a "minha madrinha" que ralhou com os rapazes da idade dela e eles disseram-lhe que me iam matar porque não queriam ali gatos. Se calhar até me iriam torturar, mas ela pediu para me levar que ficaria comigo. Os rapazes pensaram e pediram-lhe uma moeda de 200$00 (hoje um euro) para ela me levar.
Os pais dela, tinham e têm uma cadela, a minha amiga Tara e tiveram medo que ela me fizesse mal e não poderiam ficar comigo. Hoje somos grandes amigos. A "minha madrinha" falou com a tia, hoje a minha Dona, que ficou comigo mas, com medo que o Ventor não me quisesse, iria dar-me para um colega de Fernão Ferro que queria um gato para substituir outro que, alguns dias antes, tinha sido atropelado, na estrada, à porta de casa.
O Ventor chegou e, como tinha um coelho anão que vivia livre, em casa, o meu amigo Rafinho, disse logo que não me poderiam ter cá em casa com o coelho. Mas o Ventor gostou logo de mim, embora, à primeira impressão, logo que olhei o Ventor, eu me fosse esconder por detrás da aparelhagem. O Ventor e eu começamos a conviver mais e ele dava-me comer, mas olhava-me e dizia que eu iria ser um gato muito grande e que daria cabo do rafinho, num instante. Mas eu estava tão magrinho, esfomeado e sem forças e, olhando o coelho, até tinha medo que fosse o Rafinho a dar cabo de mim! Mas o Ventor pedia-me para sair de trás da aparelhagem porque tinha medo que eu morresse electrocutado e já não me deixou ir. Fazia-me festas e dizia para o Rafinho que, nós os três, tínhamos de nos entender e aqui andamos.
Mas agora, sem o nosso amigo Rafinho.
Por favor, não façam mal aos meus amigos!