Mais uma conversa do Ventor

 

O Ventor falou-me sobre o seu amigo Nemrod que, há muitas gerações atrás, vagueia sobre a Terra acompanhando o seu velho cão mas, fá-lo sem qualquer pena, sem ter que prestar contas aos seus velhos inimigos, assírio-caldaicos ou, eventualmente, a outros mais modernos. Isto é, Nemrod vagueia sobre a Terra mas não é nenhuma alma penante. Ele participa de um estudo do Senhor da Esfera, sobre a eventualidade de varrer da face da terra o homem que quis criar à sua imagem.

 

 

 

Maqueta da Porta de Istar no Museu de Pérgamo de Berlim

  

 

 

 Mapa da Mesopotâmia

  

Diz o Ventor:

 

«há muitas gerações que nos damos bem. Quando nos encontramos, bebemos uns copos, cantamos, rimos e, apesar das tristezas com que o mundo dos homens nos tem presenteado, tudo nos tem corrido mais ou menos. De vez em quando, aparece-me em forma de duende, em qualquer lugar».

 

E prossegue:

 

«às vezes, encontrava-o debaixo do seu grande chapéu, que usava nos tempos das grandes caçadas, nos vales e florestas da Caldeia, aquelas que, com o andar dos tempos, se transformaram em poços de petróleo, focos de raiva e cobiças das últimas gerações.

 

Não é por acaso que as terras da Caldeia eram ricas em leões e que os homens desses tempos tinham de lhes dar caça. Os leões apareciam nos galinheiros tal como as raposas fazem hoje pelas aldeias serranas. Levavam galos, animais domésticos e, até, pessoas.

 

Nas planuras que envolviam as partes baixas do Tigre e do Eufrates, a caçada era feita com arco e flecha, nas áreas montanhosas, mais a norte, a caçada era feita com lanças ou zagaias. Já nessa altura se apostava em manter o equilíbrio das espécies e as caçadas começaram a ser selectivas, mas lá, como hoje cá, começaram a aparecer os "shungas"! Começaram a fazer da caçada uma shungaria. Nemrod morreu, o Ventor partiu para outras galácticas e a shungaria começou a dar cabo de tudo. Quando o homem se começou a achar inteligente só porque tinha começado a raciocinar, acabou a estragar tudo. Havia sido descoberto o fogo, já há milénios, uma arma terrível para bem do homem e, também, para seu mal.

 

Acharam que deviam acabar com os leões incendiando as florestas e preparando-lhe armadilhas. Os leões fugiam à frente dos incêndios e, de repente, viam-se, frente a frente, com autênticas hostes selvagens e raivosas, sendo espetados com lanças ou furados com flechas. Nas casas dos grandes senhores as peles dos leões eram sinónimo da sua força e riqueza. Nesses incêndios, eram arrasadas florestas e todos os animais selvagens, apenas para apanhar leões!

 

Mas as coisas começaram a correr muito mal. O clima começou a mudar e a região começou a ficar cada vez mais seca. As florestas não foram recuperadas com a intensidade com que foram destruídas e a riqueza que todos os dias dava graças à passagem do meu amigo Apolo, acabou por se ir infiltrando, envergonhada, no solo, escondendo-se por lá. Passou a ser a riqueza escondida que durante milénios ali se foi acumulando até, um dia, vir ao de cima a capacidade do homem para a ir buscar mas, toda essa riqueza só tem enchido o umbigo a alguns e feito a pobreza de muitos, à sua volta. A riqueza deveria ser extraída para bem de todos e não apenas para o bem de uns poucos. Começou a ficar tudo numa grande caldeirada como no tempo do meu amigo Noé.

 

A cabeça de cada homem é um mundo esférico e independente, como o nosso mundo exterior. Vivem em confronto permanente uns com os outros e cada um, apenas magica em como deve prejudicar o outro e, apenas, por vezes, devido a forças de tracção que o induz a garantir a sobrevivência, é levado a ponderar os seus actos mas, por pouco tempo. Num ápice, devido à cobiça e inveja, começa a perceber que o vizinho tem uma vida melhor por razões que ultrapassam o seu conhecimento e, então, acaba por inventar. Muitas das vezes, esquece-se que o vizinho tem uma vida melhor porque sabe gerir melhor os seus recursos. O vizinho trabalha e obtém os seus frutos que gere da melhor forma possível virado para o essencial da vida enquanto o outro, avarento, vai para as festas, viver à grande e enriquecer outros.

 

Ele gasta os recursos nas discotecas, nos bares, nos fados, em bombas automóveis modernas e, depois, não tem o suficiente para tratar dos filhos, da sua educação e das necessidades da casa. Gasta os seus recursos em tornar outros ricos esquecendo-se do que para si é essencial. Hoje é assim e, no tempo do meu amigo Nemrod, também assim era. Uns com mais cavalos ou com mais camelos, formas de riqueza na época, com mais ou menos mulheres, com mais ou menos cabras, burros ou ovelhas, contabilizavam, na areia, as virtudes ou as desgraças do dia a dia e originavam conflitos inconcebíveis!

 

Hoje, com os mesmos ou outros meios, tudo gira da mesma maneira. Os cavalos que rebocam a nossa viatura ou a do vizinho ainda são criados nas caudelarias da Mesopotâmia, como nos tempos de Nemrod mas, tal como então, uns têm mais cavalos que outros e isso, faz mover invejas».

 

Calculem, agora, se os vizinhos de que o Ventor fala, conhecessem as caudelarias e as viaturas de Marduk!

 

Mas o ventor continuou:

 

«hoje, o mundo está a cometer os erros de outrora! Existem incendiários por todo o mundo. Na área Mediterrânica como por outras áreas inter-tropicais, as florestas ardem porque parece que há muita gente, por razões várias, a achar piada a isso. Os recursos para apagar os incêndios são sempre poucos e as catástrofes originadas por eles, são cada vez maiores. Eles consomem tudo! Animais selvagens e domésticos, economias de sobrevivência das pessoas e toda uma cadeia que nos vai reduzindo a capacidade de permanecer no Planeta Azul. Dá a impressão que esses malfeitores são a mão satânica que nos tenta empurrar para o abismo e o seu fim deveria ser, terminar com essas forças satânicas, reduzindo-as a cinzas, num qualquer galho ardente do fogo que, voluntariamente, atearam».

  

 

 

 Ruínas da velha Babilónia

 

 Nesses tempos da velha Mesopotâmia, diz o Ventor, que já haviam poesias com este teor:

 

 Babilónia

 

Cá, nesta Babilónia, donde imana,

 

Matéria a quanto mal o mundo cria.

 

Cá, onde o puro amor não tem valia,

 

Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

 

 

Cá, onde o mal se afina e o bem se dana,

 

E pode mais que a honra, a tirania;

 

Cá, onde a errada e cega Monarquia,

 

Cuida que nome vão, a Deus engana;

 

 

Cá neste labirinto, onde a Nobreza,

 

 Com esforço e saber pedindo vão,

 

Às portas da cobiça e da vileza.

 

 Cá neste escuro caos de confusão,

 

Cumprindo o curso estou da natureza.

 

Vê se me esquecerei de ti, então!

 

 

 

 

 

Diz ainda o ventor:

 

«este é um poema de Gilgamesh que leu com os olhos arrasados de lágrimas junto das falésias que circundavam o encontro dos belíssimos rios Eufrates e Tigre, com as águas do chamado Golfo. Ali gritou Gilgamesh: "estou cheio desta gente, vou partir"!

  

Foi estarrecedor ver aqueles dois amigos abraçados a chorarem as misérias que devassavam Babilónia»!

  

"Ventor!!! Gritou Nemrod. Prepara o teu arco, lança a flecha e, que ela não passe para além dos cedros do Líbano! Este é o espaço que damos ao nosso amigo, para caçar, viver, fazer as suas culturas e, se achar conveniente, explorar os cedros. A ti, peço-te a missão de o vigiares, mantendo sempre a sua integridade física».

 

O meu arco e a minha lança, serão apontados sobre a vilania, a cobiça e a tirania desta terra, onde serão repostos valores como o amor e a honra, e partirá, rio abaixo, este escuro caos de confusão".

 

 

 

Caminhadas do Ventor, por Trilhos de Sonhos e de Ralidades, cujas histórias contou ao Quico e o Quico contou-as, para vós, brincando. Foi sob o Tecto do seu amigo Apolo que aprendeu a conhecer os seus amigos, ... como o porco

Ventor

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publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 21:34